"Jacaré choca – olha olhão, crespido no lamal, feio mirando na gente".
João Guimarães Rosa. Grande Sertão Veredas.p.33
Paulo Volker
Neste momento, em algum corredor de alguma instituição publica de saúde, vários pacientes se encontram assentados ou em pé, parados e quietos com os olhos se movimentando lentamente, seguindo os profissionais de saúde que transitam de um lado para outro . É costume, no meio, chamar esses pacientes de "jacaré". Quando ouvi, pela primeira vez, a expressão "jacaré" se referindo aos usuários dos serviços públicos de saúde fiquei impressionado, não só pela afronta do apelido, mas também pelos vários significados e simbolismos que ele contem.
Afinal o que é o "jacaré" ? São as pessoas paradas, com os olhos fleumáticos, acompanhando os movimentos do medico ? São pessoas que, em se relevando o nível sócio-econômico, rastejam pelas instituições públicas ? Serão pessoas broncas, endurecidas pelas atrocidades que a miséria lhes impõe ? Ou homens e mulheres de corpos deformados pelo trabalho pesado e repetitivo do cotidiano ? A alcunha, por mais que seja perversa, tem este mérito, aponta todos estes aspectos de uma só vez.
Por ter esta capacidade de síntese, pesquiso a origem do apelido, a sua difusão, a sua incorporação, o seu uso. A sua capacidade de representar e se referir a uma realidade concreta, a sua simbologia. Como um profissional da área de saúde ouve pela primeira vez este estigma e passa a usá-lo ? Qual será o grau de discriminação que ele contem ? O referido sabe do epíteto ? Como reage ?
Quem tem algum conhecimento de antropologia ou da historia das religiões sabe que a figura ou o símbolo do jacaré (ou do crocodilo) é extremamente significativa. Na Bíblia, Livro de Jô, XLI, 16, surge a descrição do Leviatã, o monstro, o dragão, o jacaré, que quando se levanta faz tremer o mundo. Lenda igual existe na Amazônia, onde o ser Tyryryry manha, o jacaré, sustenta o mundo e quando ele se cansa, mudando de posição, provoca terremotos.
Em outras simbologias, o jacaré surge como a figura do diabo, em contraposição ao bem. Este maniqueísmo configura a humanidade de um lado e "o animal", o primitivo, de outro. Em todas as mitologias (e toda mitologia que se conhece no mundo tem seu dragão), o crocodilo ou a serpente ou o verme ou o jacaré tem esta característica do feio, do disforme, do teratológico. O termo jacaré, no Guarani (ja + care ) significa "o que é curvo", o torto.
É interessante destacar, que, geralmente, as mitologias dão ao jacaré a capacidade da vigilância, da vista aguçada, chegando alguns estudiosos a defender a tese de que a palavra tenha origem no termo DECEIN que significa vendo.
Sendo "o animal", no sentido mitológico, o jacaré deve ser vencido. Na luta entre as forcas primitivas (outra simbologia que povoa a maioria dos mitos) e a humanidade, é necessário superar esta capacidade destrutiva original (representada pelo “animal”) e organizar suas manifestações. Foi exatamente esse o papel das divindades organizadoras e mitológicas representadas por Mitra, Siegfried, Hercules, Zeus, Jasão, Horus, Coaraci e tantos outros.
Por outro lado, além deste significado destruidor e violento do jacaré, ele possui também aspecto anfíbio, pelo fato de estar entre as águas e a terra, o limo e a vegetação, dando origem então à sua característica de fecundidade. Deste modo, enquanto ser fecundo, o jacaré tem a capacidade de se multiplicar, dominando assim vastos territórios.
Já entre os egípcios era comum mumificar os mortos na forma de crocodilos, como um ritual consagrado à sabedoria. Foi exatamente este monstro, Amit, que impediu o equilíbrio da balança que deveria possibilitar o julgamento de Osíris, por devorar os contrapesos necessários para o equilíbrio.
Esta rápida passagem por alguns símbolos e mitos indica alguns significados importantes do apelido, mas acima de tudo, aponta para a possibilidade de compreendermos esta representação como algo mais profundo do que uma simples alcunha.
Se o apelido foi dado a partir do olhar, é possível entender que em algumas mitologias é exatamente o olhar do jacaré a sua característica mais importante. Ele vigia. Ao mesmo tempo ele é violento, destruidor, agressivo, primitivo. Quem nomeia o outro se vê como o seu contrário ou como seu semelhante. No primeiro caso, assume o papel do Zeus organizador, que deve controlar as forcas selvagens (muitos pacientes chegam a dizer que "é Deus no céu e o Doutor na terra"). No segundo, como membro do grupo, somos apenas mais sofisticados que nossos irmãos.
Seguindo a etimologia da palavra, quando dizem do "jacaré", falam do "deformado": o nosso povo: agredido por uma estrutura sócio-política-econômica que produz a miséria; que produz este limiar entre a civilização e a barbárie, entre a opulência e a mingua, onde fecundam de forma inacreditável, exatamente aqueles que mais padecem.
Guimarães Rosa fala com sabedoria, "Jacaré choca". Existe evidentemente muita distância entre a palavra, que usamos as vezes para denominar o usuário do serviço público de saúde e a imensa simbologia que ela evoca. Mas existem semelhanças também, tanto quanto existe preconceito, maniqueísmo e, por incrível que possa parecer, identidade.