quinta-feira, 23 de julho de 2009

A ÉTICA EM QUESTÃO

 

Paulo Volker

Quando uma sociedade começa a falar escandalosamente sobre transgressão e impunidade, não precisamos pensar muito para designar a sua doença: trata-se de enfermidade ética ! Do ponto de vista sociológico e antropológico não é uma raropatia . Muitas sociedades, nessa longa história do ser humano, padeceram desse mal. Em momentos de crise ou decadência, os limites são questionados ou simplesmente desrespeitados. A infração das leis torna-se um problema e os parâmetros legais já não são entendidos ou levados em conta. O descontrole e o descomedimento passam a imperar nas ações dos cidadãos e dos políticos.

Todas essa situação aponta para um único e mesmo lugar: a questão ética. Afinal, que lugar é esse ? É o lugar dos valores, o lugar das virtudes, o lugar onde a reflexão sobre o bem, o melhor, o comum e a moral se realiza. Evidentemente, se trata do lugar onde o ser humano guarda seus maiores tesouros espirituais.

Quando falamos de “tesouro espiritual” não nos referimos a nenhum lugar religioso ou moralista (no sentido dogmático), mas desse lugar onde a consciência humana atingiu seu mais alto desenvolvimento, porque se preocupou com a dignidade da sua existência. Essa dignidade é o cuidado com a sua morada interior e o rumo da vida das pessoas.

Quando uma sociedade passa a viver com a transgressão e a impunidade, ela revela um problema com a morada da consciência e o seu rumo. As atitudes da sociedade parecem dizer, “tudo vale”, “liberou geral”, “qualquer comportamento é possível, por mais absurdo que seja”. Ela de fato, diz isso e, ao mesmo tempo, passa a gritar “é um absurdo”, “é uma vergonha”, “precisamos passar a limpo tudo isso”, “basta”. Mas crianças continuam matando crianças; alunos atiram em nos professores; adultos seviciam crianças; drogas organizam e dominam os jovens; juizes se enriquecem roubando; políticos sulgam a riqueza da sociedade; polícia se alia a ladrão; governantes chefiam gangues .

Como é possível resolver esse problema ? Todas as pessoas de consciência lançam essa pergunta no ar. Nós, que temos como profissão pensar exatamente esse tipo de problema, respondemos: em primeiro lugar devemos dizer sinceramente: estamos mesmo dispostos a resolver esse problema ? Estamos dispostos a denunciar a nossa própria hipocrisia ? Estamos dispostos a enfrentar esses que gritam pela moralidade sob a luz dos holofotes e financiam a imoralidade nas sombras ? Esses que pregam pela punição dos assassinos e bandidos, mas fazem tráfico de armas ? Esses que gritam pela lei, mas são incapazes de respeitar um sinal de trânsito ?

Fazemos esse tipo de pergunta, porque é muito fácil dizer que existe a transgressão e a impunidade. Mas é muito difícil, nessa imensa crise, sermos legais e respeitosos. É mais fácil fechar olhos e ouvidos a tudo do que lutar diariamente para construirmos relações mais sadias e consistentes com nossos próprios vizinhos. É mais fácil cobrar medidas do governo e das autoridades, do que, a partir da integridade da nossa cidadania, sermos mais participativos, solidários e políticos. A ética fica em questão quando achamos que ela é um problema do outro, nunca um problema nosso.