quinta-feira, 23 de julho de 2009

A EMPRESA DO TRÁFICO

 

image

O organograma abaixo descreve como funciona a empresa do tráfico de cocaína. Sua ponta forte está na Colômbia, onde a droga é produzida. A outra está nos lugares onde é vendida aos viciados. O negócio é dividido em quatro níveis. Os personagens escolhidos para ilustrar o quadro são os exemplos mais conhecidos em cada nível

  1º NÍVEL
INDUSTRIAIS 
Dominado pelos colombianos. São donos de 98% do mercado 
FATURAMENTO ANUAL
Os cartéis movimentam bilhões de dólares 
CLIENTES
Transportadores que atuam no mercado internacional 
EXEMPLOS
No passado: Pablo Escobar
Hoje: Hernán Giraldo Serna, apontado como sucessor de Escobar, tem um exército pessoal de 400 homens 

2º NÍVEL
TRANSPORTADORES
São os brasileiros que têm ligação direta com os cartéis. Transportam toneladas de pó. Os brasileiros chegam no máximo a este nível 
FATURAMENTO
Remessas de até 50 milhões de reais 
CLIENTES
Traficantes, como Fernandinho Beira-Mar 
EXEMPLO
Antonio Mota Graça, o "Curica", acusado de traficar 9 toneladas 

3º NÍVEL
ATACADISTAS
Suprem os traficantes que atuam em morros e favelas 
FATURAMENTO ANUAL
Cerca de 3 milhões de reais 
CLIENTES
Os traficantes que fornecem a droga em papelotes ao consumidor final 
EXEMPLOS
A polícia estima que dezenas de traficantes atuem neste segmento. Em São Paulo: Sônia Aparecida Rossi, a "Maria do Pó"
No Rio de Janeiro: Luiz Fernando da Costa, o "Beira-Mar" 

4º NÍVEL
ATACADISTAS
Pela estimativa da polícia, milhares de traficantes atuam neste segmento
FATURAMENTO ANUAL
Milhares de reais 
CLIENTES
Viciados 
EXEMPLOS
No passado: José Carlos dos Reis Encina, o "Escadinha"
Hoje: Márcio Amaro de Oliveira, o "Marcinho VP", e Celso Luiz Rodrigues, o "Celsinho da Vila Vintém" 

Ao anunciar à imprensa internacional a captura de Luiz Fernando da Costa, o "Fernandinho Beira-Mar", ocorrida em abril na selva colombiana, o ministro da Defesa daquele país, Luiz Fernando Ramirez, afirmou: "Prendemos um dos mais importantes traficantes da atualidade". A notícia correu o mundo nesses termos. O New York Times e a rede de televisão CNN abriram espaço para contar a história de Freddy Seashore, como o criminoso é chamado em inglês. O governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, ficou tão feliz com a captura que chegou a declarar o seguinte: "Ele controla mais de 6 000 pontos-de-venda de drogas no Brasil e tem um capital de mais de 100 milhões de dólares". Garotinho previu que a prisão de Fernandinho provocaria uma queda expressiva no volume de cocaína em circulação no Brasil e uma conseqüente elevação no preço do pó. Até então, essa inflação só havia sido registrada em 1993, ano da morte do maior traficante de todos os tempos, o colombiano Pablo Escobar. A versão de que o Brasil prendeu um dos maiores traficantes do mundo tem um problema: Fernandinho não é um megatraficante. Nem está perto disso.

A importância de um traficante é definida pela polícia de todo o mundo segundo um quadro com quatro níveis, uma espécie de organograma da narcoempresa. O mais elevado dos níveis, o dos chefões internacionais, é ocupado apenas por colombianos. No passado, esse cargo era de Pablo Escobar. Hoje, a polícia caça um sujeito apontado como seu sucessor, um tal de Hernán Giraldo. Diz-se a respeito dele que possui um exército com mais de 400 homens e que remete algo como 3 bilhões de reais em cocaína por ano para os Estados Unidos e Europa. O segundo nível é preenchido pelos chamados "transportadores". O país onde eles agem com maior força é o México. Há alguns brasileiros atuando como transportadores. São homens que negociam diretamente com os cartéis da Colômbia e movimentam grandes partidas de cocaína, sempre na casa da tonelada. Pelo menos três brasileiros desse naipe foram localizados nos últimos dez anos. Um deles, Antonio Mota Graça, o "Curica", foi preso acusado de ligação com uma carga de cocaína avaliada em 50 milhões de reais. Outro, o americano radicado no Brasil Paul Lir Alexander, preso nos Estados Unidos, tinha um patrimônio de 23 milhões de reais, e o último, que ainda está sendo investigado, controla uma frota de mais de vinte aviões, com participações em onze empresas de fachada. O terceiro nível abriga dezenas de traficantes no Brasil. Eles compram cocaína em lotes de algumas dezenas de quilos e distribuem para pequenos traficantes (quarto nível), que atendem aos viciados nos morros e nos bairros de periferia. Fernandinho atuava na terceira faixa de "mercado".

  M. Lembo
Reuters
Queima de cocaína no Brasil e o presidente Pastrana, da Colômbia, ao lado de guerrilheiro das Farc: o desafio das drogas é global

O papel desempenhado por Beira-Mar na estrutura do pó já era conhecido no meio policial. "Esse cidadão não passa de um intermediário", diz Romeu Alves Ferreira, coronel da reserva do Exército do Rio, que há dez anos estuda o narcotráfico no Brasil. "Ele é o típico bandido de favela que cresceu rapidamente no mundo do crime e estava tentando dar um passo mais largo", afirma. O coronel Ferreira mantém em seu computador um questionário com 35 itens para encaixar os traficantes conhecidos num dos quatro níveis. Esse questionário confirmou Beira-Mar no terceiro escalão. O resultado dessa análise foi submetido por VEJA a quinze especialistas no assunto. Apenas um, o secretário de Segurança do Rio, Josias Quintal, discordou da avaliação. Procurado para falar sobre o tema, a primeira reação do secretário foi afirmar que Beira-Mar era o maior traficante do Brasil. Apresentado aos dados que situam Beira-Mar em uma posição mais modesta, Quintal adotou postura cautelosa: "Não tenho condição de avaliar o tráfico em todo o Brasil", afirmou. "Só posso falar pelo Rio, onde seguramente ele é o maior."

Beira-Mar foi transformado num megatraficante por causa de um conjunto de fatores políticos. O primeiro apareceu na eleição de 1998. O governador Garotinho concorreu ao cargo empunhando a bandeira do combate ao crime organizado. Meses após a posse, criou uma equipe de policiais só para investigar Beira-Mar, foragido de um presídio em Minas Gerais. O segundo episódio ocorreu em virtude da CPI no Congresso Nacional para tratar do narcotráfico. Depois de constatar que não teriam meios de produzir grandes novidades, os deputados se concentraram nos traficantes mais conhecidos pela mídia, entre eles Fernandinho. Detalhe: mesmo foragido, o traficante vivia dando entrevistas em rádios e jornais, ameaçando "entregar todo mundo", como dizia. Para reagir a suas provocações, a Polícia Federal e os policiais cariocas montaram uma megaoperação para capturá-lo. Pressionado, Fernandinho mudou-se para a Colômbia. Lá, seu nome serviu a um terceiro propósito de fundo político. Há uma corrente política que advoga a tese de que as Farc devem ser combatidas a bala, sob o argumento de que dão abrigo a traficantes. Há vários indícios dessa ligação, mas faltava uma prova definitiva. E ela apareceu quando o Exército colombiano teve a notícia de que um megatraficante brasileiro estaria escondido entre os guerrilheiros. Montou-se uma estratégia para caçar Fernandinho e outra, muito bem organizada, para dar relatos diários à imprensa sobre os progressos alcançados.

Fernandinho Beira-Mar não é um bagrinho qualquer. Primeiro porque, em treze anos de carreira criminosa, construiu um bom patrimônio. De acordo com levantamento feito pela polícia até o momento, seus bens conhecidos giram em torno de 4,5 milhões de reais, incluindo na conta imóveis registrados em seu nome e no de laranjas. Ou seja, é alguém que conseguia guardar algo como 30.000 reais por mês no período. Outro dado que o distingue da maior parte dos bandidos é o temperamento violento. Num diálogo assustador captado pelo grampo da polícia, Beira-Mar mandava cortar o braço, os pés e a orelha de um inimigo, "devagar, pedaço por pedaço". Antes de ser assassinada com cinco tiros, a vítima foi obrigada a comer a própria orelha.

Por muito tempo, o Brasil não passou de um corredor alternativo para que a droga produzida na Colômbia chegasse aos Estados Unidos e à Europa. Numa segunda fase, parte da droga começou a ser comercializada também no mercado interno. Hoje, o país disputa o segundo lugar entre os maiores consumidores de tóxicos, atrás apenas dos Estados Unidos. Há um debate internacional sobre a melhor forma de lidar com o problema. Uma corrente prega a liberação total das drogas. Outra, adotada pelos Estados Unidos e também defendida pelas autoridades brasileiras nos seminários temáticos, fala numa combinação de esforços em duas frentes: a educativa, que tem por objetivo reduzir o interesse dos jovens pelas drogas, e a policial, que visa a diminuir a oferta. Há uma opinião predominante entre os especialistas. A repressão mais eficaz é aquela feita sobre os megatraficantes, os que mexem com toneladas. A prisão de um barão acaba desmontando uma quadrilha pela cabeça. É ótimo que a polícia tenha conseguido trancafiar Beira-Mar. Mas, ao sugerir que prendeu um chefão do tráfico, passa à sociedade a idéia de que está trabalhando segundo as regras do manual. Indiretamente, vende a impressão de que o país está até mais seguro, pois se livrou de um tubarão. Infelizmente, os verdadeiros chefões ainda estão soltos. Em tempo: a droga no Brasil (e também no Rio) não aumentou de preço após a prisão de Freddy Seashore.