A FILOSOFIA E A SOCIOLOGIA DO MUNDO
Paulo Volker
Nascem “os novos” nesse velho mundo, que se estende para além de todas as porteiras, herança que recebemos das velhas gerações. Esse velho mundo prenhe de coisas, inventadas, descobertas, construídas, desenvolvidas e aperfeiçoadas por essa infinita descendência que caracteriza os humanos. O geneticista é Bryan Sykes, da Universidade de Oxford, que aponta a origem dessa descendência nas “33 filhas de Eva”, bases genéticas de onde todos humanos atuais originaram. A arqueologia nos mostra a proveniência desse mundo através daqueles minuciosos instrumentos de pedra usados pelas civilizações paleolíticas para raspar, cortar e costurar peles, datadas de quase dois milhões de anos. Os antropólogos nos mostram a fantástica herança mitológica deixada por nossos antepassados, nesse esforço inesgotável que temos para explicar nossas origens, nosso destino, o significado da nossa presença nesse planeta.
E seja lá onde vasculharmos as coisas e os escritos humanos, encontraremos sempre, exatamente isso, perguntas sobre a origem, o significado e o objetivo. Seja na voz de um Édipo, nas harmonias da sinfonia de um Berlioz ou nos reflexos dos espelhos de Velásquez - sempre encontraremos esse eco, que repercute por todos os cantos onde o humano se postou, dos bandos nômades que vagavam pela África, ao caçadores Arianos, até os agricultores neolíticos do Oriente Médio.
Hoje, quando as sondas espaciais sulcam as imensidões do espaço, vasculhando com seus radares meteoritos, planetas, satélites e cometas, são essas perguntas que as animam. O desconcertante telescópio Hubbles, quando dirige suas lentes para as extensões extremas do espaço, busca ver o que éramos nas origens do tempo, como se o universo repetisse sempre a saga da Terra, que foi da poeira ao planeta, da pedra à água, do peixe ao mamífero e desse ao humano.
O mundo é o resultado dessa busca humana pelo significado de si mesmo. Essa busca gera a consciência, os valores, a ética, o sagrado, as leis, a civilização. Gera o artifício, o conjunto de todas as coisas construídas e, acima de tudo, o sonho, o projeto de resgatar a plenitude nunca vivida, mas jamais esquecida, idealizada na forma de um paraíso onde todas as angustias estarão resolvidas, todas as dificuldades superadas, todas as aspirações prontas para a realização.
O humano é esse animal que sonha arrebatar-se à condição do idílico e da perfeição, sabendo que terá que alcançar o seu sonho através da transformação do mundo e de si mesmo, evoluindo. Esse é o traço que o distingue, que lhe permite forjar uma cultura e descolar dos ciclos inflexíveis da vida, garantindo-lhe a autonomia e, conseqüentemente, a responsabilidade por suas escolhas. Se o humano construiu um mundo que se aparta dos inexoráveis determinantes da natureza, caberá a ele assumir as conseqüências das suas atitudes e escolhas.
Fazer a filososofia e a sociologia nas escolas é dar aos “novos” a noção dessa responsabilidade, no contexto da transmissão da gestão do mundo de uma geração para outra. Cada jovem está destinado a assumir sua parte nessa tarefa humana que se derrama para o futuro em busca daquele arrebatamento. Cada criança que nasce assume a herança fabulosa de todas as realizações, fracassos e saltos dados pela humanidade em busca de si mesmo. Cabe à filosofia e à sociologia passar a justa dimensão da condição humana, a fantástica herança dos povos, das culturas, das artes, das políticas, das tecnologias. É dar-lhes a noção das responsabilidades que essa herança admite, quanto ao estudo, à pesquisa e à manutenção dessa memória. É distinguir-lhes as tarefas, os obstáculos, os planos e os projetos que apontam para um futuro melhor que o presente e digno de todo esse passado. Enfim, fazer a filosofia e a sociologia na escola é mostrar que, para além das imposições da vida e seus reclames instintivos, orgânicos, consumistas e genitais, há o esplendor do mundo com suas vastidões imemoriais, para além de todas as porteiras.